Diário de Campanha 5 – “Sombras do Passado: 2ª Parte”

Fire Elemental

A visão era sempre a mesma. Tinha presenciado tudo na primeira pessoa, no entanto, as memórias não o deixavam sossegado. E sempre, nos momentos de maior fragilidade da sua meditação, era assaltado por uma catadupa de imagens. Como uma maldição, condenado a rever vezes sem conta o dia mais marcante e doloroso da sua vida. Começava sempre da mesma maneira, mas o inicio não era o pior. O que se seguia era muito mais penoso. Ainda agora ele se lembrava de tudo o que vira, de tudo o que sentira, e do cheiro. Aquele cheiro a queimado que se recusava a abandoná-lo…

O pânico estava no ar.
E espalhava-se tão rapidamente como o fogo que o alimentava. Lanarien reagiu por instinto. Não prestou mais um único momento de atenção à criatura e correu, o mais rapidamente que conseguia, para o rés-do-chão da torre. Não tinha a mínima ideia do que poderia fazer, só sabia que não podia ficar parado. Toda a torre tinha despertado em alvoroço e muitos dos seus companheiros de estudo, e até professores, o acompanhavam. Aquilo com que se depararam à entrada da academia foi um cenário, muito literalmente, infernal. Largas partes da cidade encontravam-se em chamas. Elementares de fogo estavam por todo o lado, destruindo e matando indiscriminadamente. Uma das criaturas notou o crescente aglomerado de indivíduos à porta da academia e sem cerimónias enviou um projéctil flamejante na sua direcção. Lanarien, que encabeçava o grupo, tinha visão privilegiada para os acontecimentos e conseguiu desviar-se a tempo. Os que o seguiam não tiveram a mesma sorte.

Por largos minutos Lanarien deambulou pela cidade às cegas, impotente para fazer o quer que fosse. A sua casa estava em chamas, diversas criaturas rodeavam-na tornando impossível a aproximação. Finalmente, Lanarien ouviu uma voz familiar.

“Lanarien! Lanarien!” Era Illibrad. “Os deuses sejam louvados, pensava que tinhas sucumbido como todos os outros. Que fazes por aqui? Não há tempo a perder, temos de voltar para a academia, a jóia protectora tem de ser protegida!” Lanarien não respondeu, limitou-se a olhar de novo para a sua casa. Illibrad compreendeu.

“Não há nada que possas fazer, rapaz. Se alguém estava em casa, está para lá da salvação.” Como que concordando com a afirmação de Illibrad toda a casa rangeu, como um último gemido de agonia, e colapsou sobre o seu próprio peso. Nada restavam senão ruínas. Illibrad tomou Lanarien pelo braço e arrastou-o rapidamente pelo caos das ruas, em direcção à academia. Nos minutos que passaram desde que Lanarien tinha abandonado o local, este tinha-se tornado irreconhecível. A inexorável força destruidora que tinha passado por ali tinha deixado a fachada do edifico milenar em ruínas. Eles subiram apressadamente as escadas que levavam ao topo da torre mas, quando estavam perto do topo, o seu progresso foi barrado por um dos emissários flamejantes. Ele preparava-se para atacar. Rápido como um relâmpago, Illibrad empurrou Lanarien para fora do alcance da criatura e atacou. Forças arcanas misturaram-se com fogo extra-planar num duelo implacável. Illibrad lutava corajosamente, mas estava notoriamente a perder terreno.

“Deixa-me!” gritou ele “Segue para o topo, recupera a jóia!” Lanarien hesitou momentaneamente, mas anos de treino tinham-lhe habituado a confiar no seu mestre, pelo que seguiu em frente. Antes de sair do alcance sonoro do seu mestre, no entanto, foi ainda capaz de ouvir o que lhe pareceu, estranhamente, a uma errática referência a uma caixa de veludo.

Lanarien não sabia ao certo como poderia garantir a segurança da jóia. Não sabia como lidar com uma daquelas criaturas, muito menos um batalhão. Mas sabia que o seu mestre raramente se enganava. Sabia que as suas decisões eram carregadas de sabedoria, que eram o caminho para a solução. Por tudo isto, ele acreditava que seria capaz de cumprir a sua missão. Ele sabia que a jóia seria protegida e tudo acabaria em bem. O que ele não sabia, era que estava completamente enganado.

O topo da torre era uma vasta sala circular, com um telhado semiesférico totalmente de cristal. Normalmente estava constantemente selada, já que só indivíduos muito específicos podiam lá entrar em ocasiões muito particulares. Neste momento, no entanto, o acesso à sala estava completamente desimpedido, e esta encontrava-se tudo menos vazia. O elementar de ar encontrava-se lá, em feroz batalha com um gigantesco elementar de fogo e outros menores. Parecia estar em dificuldades, no entanto, os elementares de fogo menores caíam, progressivamente, sob a sua fúria. Nenhum deles viu Lanarien e este aproveitou essa benesse para procurar a jóia. Não teve de procurar muito. A jóia encontrava-se suspensa no meio da sala, no interior de uma caixa transparente que, por sua vez, estava presa ao tecto por uma fina corrente. A luz, tão típica, emanada pela jóia continuava placidamente imperturbada.

Não sabia como iria retirar a jóia daquele local sem ser visto, e mesmo que soubesse não iria ter tempo de por um qualquer plano em prática. Enquanto o elementar de ar, claramente enfraquecido, era rodeado por elementares de fogo menores, a gigantesca criatura de fogo que os acompanhava recuou da batalha e com um simples movimento retirou a jóia do seu local de repouso. A luz da mesma extinguiu-se imediatamente e o grito de desespero da criatura de ar foi imitado, instintivamente, por Lanarien. Foi o suficiente para que, finalmente, reparassem nele. O elementar de ar estava nos seus últimos momentos, os ataques sucessivos dos oponentes que o rodeavam eram incessantes e sem misericórdia. Ainda assim, conseguiu falar a Lanarien.

“Tu! Tu tens de recuperar o Olho. Não os deixes libertar o seu poder ou tudo o que conheces está ameaçado. Peço-te, honra o meu compromisso com os meus irmãos e o teu para com esta cidade, recupera o Olho!!”

Neste momento, enquanto o elementar falava, aquele que tinha retirado a jóia avançava até Lanarien que, automaticamente, recuou. Uma parede. Estava encurralado. O movimento foi rápido e decisivo, Lanarien sentiu o calor logo quando a criatura ergueu o braço para o atacar e, claramente, matar. O movimento descendente foi acompanhado pelo grito inumano do elementar de ar, assinalando a sua morte. Lanarien fechou os olhos e esperou pelo inevitável. Nada aconteceu.

Quando abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi a expressão do gigantesco elementar de fogo. Algo que só se podia classificar como sendo confusão. Só depois reparou que se encontrava paralisado. Os seus músculos não respondiam. Ao seu redor, uma ligeira aura de electricidade rodeava-o, e ai tudo fez sentido. Um último presente de um ser condenado. Todos os elementares de fogo convergiram na sua posição e tentaram atacá-lo, mas Lanarien continuava fora do seu alcance. Finalmente, decidindo que ele não era uma ameaça, todas as criaturas deslocaram-se para o centro da sala, formando um círculo com a maior de todas no centro. Lanarien assistiu, impotente, à situação. As criaturas executaram alguns breves movimentos, entoaram palavras numa língua desconhecida e, finalmente, desapareceram.

Tão depressa como tinha começado, tinha acabado.

Lanarien demorou algumas semanas até finalmente se decidir. Depois daquele dia fatídico as coisas nunca mais foram as mesmas. Um número incontável de pessoas tinham morrido, a cidade estava em ruínas. Alguns dos sobreviventes falavam em reconstrução. Outros em procurar um sitio melhor onde recomeçar. Lanarien nunca encontrou sinal dos seus familiares, apesar de ter procurado durante dias nas ruínas da sua casa. Illibrad tinha sido morto pela criatura com que Lanarien o deixou a lutar e muitos dos seus colegas tinham perecido também. Restava pouco com que se identificasse nas ruínas de Everglow. As últimas palavras do elementar de ar perseguiam-no constantemente, e o seu pedido, em tudo igual ao pedido do seu falecido mestre, era a única coisa que ele conseguia pensar. Um dia, numa tentativa fútil de procurar paz, Lanarien tinha-se deslocado aos antigos aposentos do seu mestre, um dos poucos locais na torre que estava minimamente apresentável, e foi durante esse período que descobriu uma pequena caixa de veludo numa gaveta da secretária de trabalho do ancião. O objecto despertou-lhe o interesse, em grande parte, devido àquilo que lhe pareceu ter ouvido quando abandonava Illibrad ao seu destino. No interior da caixa estava um livro. Era um antigo volume arcano, algo que Lanarien nunca tinha visto. À primeira vista, deduzindo a partir das cuidadosas ilustrações, parecia tratar-se de um manual que ensinava rituais antigos de criação de um item específico que Lanarien não conseguiu, na altura, determinar. Este foi o momento decisivo, e ele sabia o que tinha de fazer.

Lanarien deixou o que restava de Everglow no dia seguinte. Levando com ele pouco mais do que o seu livro de feitiços, os seus componentes, e o livro que Illibrad deixara ao seu cuidado. Partiu para parte incerta com a sua mente decidida a encontrar o Diamante de Liathnor. Everglow seria vingada. E quando ele recuperasse a jóia, Everglow seria reconstruída.

A visão era sempre a mesma. Uma visão do seu passado. Uma visão daquilo que tinha alimentado a sua determinação, que o tinha trazido até ao ponto onde se encontrava agora. A visão de uma missão.

_______________

NOTA: Este é um diário pessoal de Lanarien De’Liath, a minha actual personagem. Para mais detalhes das aventuras de toda a party de heróis a que Lanarien pertence, não percam os resumos regulares da “Elemental Campaign”.

2 Comentários

  1. Continua :) o DM aprova e gosta :)

  2. Ola!
    Passei aqui rapidinho, gostei do seu texto. Parabens!
    Add orkut: gregoryyebonyvieiradesousa@hotmail.com


RSS dos Comentários URI de Identificação do Trackback

Publicar um comentário